Área de Concentração

O Programa de Pós-Graduação em História tem como Área de Concentração a História Social das Relações Políticas, que se subdivide nas seguintes Linhas de Pesquisa: 1) Sociedade e Movimentos Políticos; 2) Estado e Políticas Públicas; e 3) Representações e ideias políticas.  No que concerne ao perfil acadêmico do PPGHIS, elegemos como área de concentração a História Social das Relações Políticas. A História Política, como se sabe, foi durante décadas condenada ao desprezo por parte dos autores filiados à Escola dos Annales os quais, no ímpeto de estabelecerem novos paradigmas para a interpretação da História, passaram a atribuir à política um lugar menor dentro do conjunto de fenômenos sociais passíveis de reflexão por parte dos historiadores, muito embora, como alerta Peter Burke (1991, p.100-101), os acontecimentos políticos nunca tenham sido completamente suprimidos do horizonte de análise de autores como Bloch, Braudel, Le Roy Ladurie e Duby. De qualquer modo, em termos gerais, a História Política era compreendida como um domínio extremamente limitado da explicação histórica na medida em que os acontecimentos políticos se localizavam na superfície do real, tornando-se assim imprescindível, para a compreensão do sentido profundo de um dado processo histórico, a referência a outros elementos, tais como o social e o econômico (RÉMOND, 1996, p.19). Factual, descritiva, idealista, excessivamente comprometida com o Estado e a Nação, privilegiando a ruptura em detrimento das continuidades, centrada no estudo das grandes personalidades e da sua psicologia e não das entidades coletivas e, por isso mesmo, de caráter elitista (BURKE, 1992, p.10 e ss.), a História Política era a antítese da Nova História que se desejava instituir, razão pela qual se produziu desde o início uma cisão entre a História Política, considerada como a expressão por excelência de um fazer histórico de tipo tradicional, e o que se convencionou designar como História Social.

A História Social se constituía, fundamentalmente, como uma história-problema voltada para o estudo dos agregados sociais inseridos em uma perspectiva estrutural e de vocação interdisciplinar, delimitando assim uma nova postura historiográfica frente à história tradicional (CASTRO, 1998, p.45-6; REVEL, 1998, p.17). Daí se segue que as acepções posteriores de História Social tenderam a negligenciar sistematicamente os aspectos políticos da sociedade. A História Social entendida como um campo de investigação voltado quer para a análise da vida privada em oposição à pública, quer para o mundo do trabalho e das associações coletivas ou das diversas categorias que compõem a estrutura social (CASTRO, 1998, p.47-48), se associava estreitamente aos domínios econômico e cultural e nesse movimento excluía a História Política, não sendo por mero acaso que em 1946 a revista adotou o sugestivo título Societés, Economies, Civilisations, deixando claro que a política não fazia parte do seu repertório primário de objetos históricos. Em face de uma situação como essa é que um autor como G. M. Trevelyan pôde elaborar uma definição de História Social como sendo a história com a política posta de lado (BURKE, 1992, p.37). O desinteresse dos historiadores do social para com a História Política se tornaria evidente, por exemplo, nas intervenções ocorridas durante o Colóquio da Escola Normal Superior de Saint-Cloud em 1965, ocasião na qual Labrousse (1973, p.21) defendia uma História Social voltada para o estudo dos grupos sociais e das suas relações com o econômico e o mental. Sobre o político, nem uma palavra.

A partir da década de 70, no entanto, observamos uma lenta e contínua reabilitação da política motivada, do ponto de vista do contexto histórico contemporâneo, pela crescente interferência das relações internacionais na vida interna dos Estados à medida que o mundo experimentava uma integração cada vez maior e pela ampliação das áreas de atuação do Estado, o qual passava a intervir diretamente sobre a sociedade por intermédio de decisões governamentais compreendidas na designação políticas públicas. Ambos os fatores em conjunto evidenciavam a individualidade do político e a sua importância para a estruturação da sociedade, não sendo, portanto, um mero apêndice do social, do econômico ou do cultural (RÉMOND, 1996, p.23). Por outro lado, transformações no interior da própria disciplina histórica foram igualmente responsáveis pela reabilitação do político. A terceira geração dos Annales, valendo-se dos pressupostos teóricos de autores como Max Weber, Hannah Arendt ou Tocqueville, produziram uma nova interpretação para as relações Estado-sociedade, um tema clássico da história tradicional que carecia de uma conceitualização mais sofisticada, o que coincide com a retomada dos trabalhos de Norbert Elias, um autor de inclinação weberiana que durante muito tempo permaneceu praticamente ignorado pela historiografia (FALCON, 1998, p.75). Ao mesmo tempo, os estudos de Michel Foucault sobre o poder e a sua difusão por espaços da vida social até então pouco explorados pelos historiadores (família, escola, asilos, hospitais e outros) abriam uma ampla perspectiva de análise para os pesquisadores interessados no redimensionamento da História Política, fazendo com que o enfoque macropolítico do Estado e das suas instituições que havia por décadas caracterizado a produção da História Política fosse agora enriquecido e complementado por uma análise em nível micro e dirigida para o coração da própria sociedade, passando-se do estudo da política tout court para o estudo do poder (VAINFAS, 1998, p.444). Do mesmo modo, para a reabilitação do político foi inegável a contribuição dos autores marxistas, tais como Gramsci, Althusser, Poulantzas e Anderson, os quais não apenas redefiniram conceitos centrais para o estudo da Política, mas se preocuparam também em discernir a dimensão e o conteúdo das relações entre o Estado e a sociedade segundo os princípios do materialismo histórico (FALCON, 1998, p.72). Por último, mas não menos importante, há que se ressaltar os contatos interdisciplinares mantidos entre os historiadores e os antropólogos, o que permitiu que o estudo do poder e da política contemplasse os aspectos simbólicos de tais fenômenos, abrindo assim caminho para uma interpretação culturalista do exercício do poder inspirada pelos trabalhos de Clifford Geertz (1973), Georges Balandier (1980) e Pierre Clastres (1974), dentre outros.

No intuito de superar os preconceitos que relegavam à História Política e aos seus historiadores uma posição acadêmica subalterna, começou-se a questionar a antiga concepção segundo a qual a História Política seria necessariamente factual (ou événementielle conforme uma definição que se tornou canônica). Braudel (1978, p.46) mesmo, em um célebre ensaio sobre a longa duração produzido em 1958, declarava que a história política não é forçosamente ocorrencial, nem condenada a sê-lo, muito embora concluísse que há cerca de cem anos os estudos de História Política se dedicavam prioritariamente ao chamado “tempo curto”. No entanto, como argumenta Julliard (1976, p.181), um dos principais historiadores comprometidos com a renovação dos estudos de História Política, não se pode continuar a confundir as insuficiências de um método com os objetos a que se aplica, uma vez que o acontecimento, o fato per se, existe em todos os domínios, razão pela qual a estratégia mais produtiva seria considerar que a política é uma área de conhecimento do mesmo nível que o econômico, o social e o cultural, podendo assim acomodar-se aos métodos os mais diversos em lugar de permanecer circunscrita à descrição linear e factual. Desse modo, o político passa a ser compreendido como uma dimensão importantíssima da vida social, possuindo o seu dinamismo próprio e estabelecendo relações específicas com o social, o econômico e o cultural (RÉMOND, 1996, p.10). Como bem definiu Blockmans (1981, p.113), todas as relações entre homens têm finalmente uma dimensão política, uma vez que esta concerne à repartição entre os grupos sociais do acesso a bens desejáveis, o que nos estimula a reconsiderar a importância do político quando se trata de interpretar a História de um ponto de vista mais abrangente.

A revalorização da História Política foi acompanhada pela sua aproximação progressiva com a História Social, da qual permaneceu distante por décadas. Assim é que Duby (1976, p.10), ao criticar, por um lado, a associação quase exclusiva entre a História Econômica e a História Social que havia se produzido ao longo da década de 60 e, por outro, o perigo de se constituir uma História das Mentalidades desvinculada de qualquer referência às estruturas materiais, propunha que a História Social avançasse no sentido de se estabelecer na confluência entre os fenômenos de natureza econômica, cultural e política, de modo a se produzir uma História a mais globalizante possível, o que impedia que os historiadores ignorassem pura e simplesmente os fatores políticos no decorrer da sua investigação. No entanto, as décadas de reflexões e debates sobre o fazer histórico patrocinados pela Escola dos Annales e pelos historiadores marxistas impediram que a História Política fosse recuperada aos moldes daquela preconizada por Langlois e Seignobos. Atualmente, a assim denominada “Nova História Política” experimenta uma notável abertura conceitual e uma renovação metodológica sem precedentes, fruto da assimilação de teorias e métodos de trabalho elaborados por estudiosos de outros domínios do conhecimento histórico bem como por antropólogos, sociólogos e cientistas políticos, o que tem lhe permitido não somente redefinir alguns objetos da antiga História Política, mas também sugerir novos e mais criativos objetos (FALCON, 1998, p.77). De fato, hoje os historiadores que se dedicam ao estudo da política não se restringem mais ao Estado e a suas instituições nem o consideram uma entidade autônoma diante da sociedade, mas preferem acentuar as implicações sociais da política, o que os leva a refletir, em última análise, sobre as modalidades de exercício do poder.  Mediante tal perspectiva, o Estado deixa de ser considerado o centro a partir do qual o poder é gerado e difundido pelo conjunto da sociedade para se converter em mais uma dentre as várias instâncias de poder possíveis cujas inter-relações constituíram uma anatomia do poder própria de uma sociedade específica em um dado momento histórico (GOUVÊA, 1998, p.2). Com isso, as possibilidades de investigação multiplicam-se enormemente, descobrindo-se a política dispersa no cotidiano, as implicações culturais, simbólicas das relações de poder, as conexões entre linguagem/poder, gênero/poder e outras (BURKE, 1992, p.37).

Assim, a História Social se reconcilia com a História Política de modo a produzir uma vertente de abordagem da realidade histórica extremamente fecunda e promissora, razão pela qual pretendemos desenvolver, no PPGHIS, a análise das distintas modalidades de relações de poder vigentes nas sociedades humanas ao longo do tempo. A área de concentração definida como História Social das Relações Políticas constitui-se em um campo de reflexão fundamentado em uma concepção de História Social segundo a qual no interior de uma sociedade determinada os distintos grupos, categorias, classes ou segmentos sociais estabelecem, uns com os outros, comportamentos políticos específicos, quer de reciprocidade e/ou complementaridade, quer de oposição e/ou de conflito, de acordo com as circunstâncias e os interesses envolvidos. A área pressupõe também que os acontecimentos políticos não são autoexplicativos, impondo-se a referência a outras dimensões da realidade histórica, tais como a sociedade, a economia e a cultura, a fim de compreender em profundidade a dimensão dos mesmos, o que amplia sobremaneira o horizonte de análise da História Política (FALCON, 1999, p. 66). Por outro lado, na medida em que o poder não é um objeto, mas uma relação social, é imprescindível que sejam definidos os limites dessa relação entre os grupos em interação no âmbito da sociedade, o que nos leva a refletir sobre a natureza social do poder político, conforme a proposição de Julliard (1976, p.191). Sendo assim, cabe à investigação empírica determinar de que modo se dá a distribuição do poder entre os distintos grupos que compõem a estrutura social a partir de um conjunto de relações assimétricas que conferem a cada um deles uma capacidade desigual de interferência no cenário político (JULLIARD, 1976, p.190). Na verdade, os comportamentos políticos que os grupos em interação assumem e a dinâmica da sua ação no decorrer de um dado contexto histórico podem ser descritos como um objeto de estudo sócio-político, de modo que a área de concentração em História Social das Relações Políticas reconhece a necessidade de pesquisar, de maneira mais sistemática, a interseção entre ambos os domínios, o social e o político.

Diante dessa perspectiva, um amplo campo de análise é constituído pelas modalidades de intercâmbio entre os grupos sociais dentro do Estado, o qual deixa assim de representar uma entidade autônoma para se enraizar na própria estrutura social. De capital importância, nesse caso, são os estudos que se propõem a identificar as categorias sociais que controlam o Estado bem como a composição social e as atribuições dos órgãos administrativos, jurídicos e militares. Cabe ainda a investigação a respeito do grau de ingerência mantido pelo Estado sobre a sociedade, a sua capacidade em produzir consenso e os mecanismos de repressão utilizados pelos detentores do poder político no trato com grupos sociais e/ou facções dissidentes. Além disso, é possível se compreender os princípios da gestão estatal por intermédio das chamadas políticas públicas, as quais definem o grau de ingerência do Estado sobre inúmeros setores da vida social, tais como a economia, a saúde pública, a assistência social, o sistema educacional, os fluxos migratórios, a redistribuição fundiária e a difusão da cultura.
A análise da dimensão política da realidade social compreendida na área de concentração em pauta não se restringe, no entanto, ao estudo do Estado, dos órgãos que o compõem e das categorias sociais que o sustentam, mas inclui igualmente todos os movimentos gerados a partir de segmentos sociais exteriores ao próprio Estado e reduzidos a uma condição subalterna, as demandas variadas que impõem, a sua capacidade organizativa e o modus operandi da sua atuação, a qual pode assumir inúmeras vertentes, indo da manifestação pacífica à revolta aberta contra o status quo.  Como contrapartida de uma abordagem desse tipo, fundamentada na resistência da sociedade às diretrizes políticas estatais, é preciso levar-se em consideração as estratégias de cooptação desenvolvidas pelos poderes públicos no confronto com os grupos sociais, trazendo muitas vezes para a sua órbita de influência movimentos e/ou instituições sociais cuja gênese era exterior ao próprio Estado (RÉMOND, 1994, p.24).

A área contempla igualmente os poderes periféricos, moleculares, situados em um âmbito restrito. Poderes que se revelam no cotidiano e se encontram incrustados em instituições que não apresentam uma conotação política evidente, tais como a família, as entidades educacionais e religiosas e as associações lítero-culturais e recreativas. Poderes que não apenas reprimem, mas que são ao mesmo tempo criadores, instaurando uma disciplina de gestos, comportamentos e discursos. Esse tipo de abordagem, entretanto, não se opõe necessariamente ao estudo do poder de Estado. Pelo contrário, ambos os níveis devem ser analisados em conjunto uma vez que o Estado e suas estruturas se constituem apenas em um instrumento de um sistema de poderes que não se encontra unicamente nele localizado, mas que o ultrapassa e complementa. Assim, é necessário que por uma orientação metodológica de caráter macro acompanhemos as relações de poder que, partindo do Estado, se prolongam pelo conjunto da sociedade e se reproduzem de modo atomizado nos domínios mais insuspeitos da vida social. No outro oposto da escala, pode-se interrogar a respeito de como os ditos micro-poderes, os quais possuem uma história própria e procedimentos específicos, se relacionam com o nível mais geral do poder constituído pelo aparelho de Estado (MACHADO, 1979, p.xiii). Ao procedermos dessa maneira, temos condições de revelar conexões insuspeitas entre o poder de Estado e os micro-poderes bem como configurações inéditas da cartografia política de uma dada sociedade, uma vez que a constituição do Estado é feita do conjunto dos níveis “macro” e “micro” cujas articulações, conforme esclarece Revel (1998, p.32), necessitam ainda serem identificadas e pensadas.

A área permite também a análise dos conteúdos simbólicos que integram as representações, com sua irradiação sobre o espaço público e/ou privado. Nesse aspecto particular, ao domínio sócio-político da realidade histórica associa-se o domínio cultural, buscando-se compreender a maneira pela qual os distintos grupos sociais elaboram critérios de interpretação do mundo que os rodeia de modo igualmente distinto. Como esclarece Chartier (1990, p.17), as representações assim construídas não são de modo algum discursos neutros, mas produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados. (...) Por isso a investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e dominação. Desse modo, as idéias, materializadas em discursos, gestos, rituais e símbolos iconográficos e reproduzidas tanto pelo saber erudito quanto pelo senso comum, se convertem em poderosos instrumentos de produção de identidades e alteridades associadas ao exercício do poder, ao mesmo tempo em que encorajam à ação, instruindo os comportamentos políticos que pretendem construir o mundo segundo uma determinada ótica.

Assim definida, a área de concentração em História Social das Relações Políticas pretende viabilizar estudos históricos e historiográficos, seja no nível das micro-relações, seja no nível das relações macropolíticas, tendo como objeto o poder e o modo pelo qual o mesmo é distribuído no interior da estrutura social, incluindo-se aí tanto os aspectos da práxis política efetiva quanto às concepções, visões de mundo e reflexões político-filosóficas a ela associadas. Para dar conta deste amplo campo de investigação histórica, foram concebidas três linhas de pesquisa, de acordo com as aptidões e experiências dos professores doutores integrantes do PPGHIS, conforme seguem explicitadas: Sociedade e Movimentos Políticos, Estado e Políticas Públicas e Representações e Ideias Políticas.

Acesso à informação
Transparência Pública

© 2013 Universidade Federal do Espírito Santo. Todos os direitos reservados.
Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES | CEP 29075-910